Linfócitos: da produção de anticorpos ao combate a infecções

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O que você precisa saber sobre a produção de anticorpos e o combate a infecções

O principal exame para a avaliação inicial do sangue, o hemograma, é composto por três determinações básicas: série vermelha, série branca e plaquetas. Na série branca são avaliadas a contagem total de leucócitos, a contagem diferencial (em números absolutos e relativos) e a morfologia das células por meio de microscopia.

Os leucócitos são células sanguíneas produzidas na medula óssea que possuem em comum a capacidade de atuar na defesa do organismo. São subdivididos em duas categorias: agranulócitos e granulócitos. Os linfócitos são os agranulócitos mais abundantes na circulação.

Os linfócitos são células com diferentes funções, mas que compartilham as mesmas características quando observados em lâmina. São células geralmente pequenas, com contorno regular e arredondadas, possuindo alta relação entre núcleo e citoplasma. O citoplasma é basófilo e escasso, enquanto o núcleo é regular, esférico e de tonalidade azul-roxeada. O nucléolo nem sempre é visível devido à condensação da cromatina (figura 1).

 

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Figura 1. Morfologia de um linfócito (seta) em microscopia óptica. Fonte: LACES – UFG

Tipos de linfócitos

Apesar de possuírem as mesmas características morfológicas e estarem envolvidos em processos de imunidade do organismo, os linfócitos podem ser divididos em três grupos principais, de acordo com as suas características fisiológicas: linfócitos B, linfócitos T e linfócitos NK.

Os linfócitos B são responsáveis pela produção de anticorpos e apresentação de antígenos aos linfócitos T. Deficiências em linfócitos B levam à quadros de imunodeficiência, enquanto contagens elevadas dessas células estão associadas a doenças autoimunes, hipersensibilidade e alergias.

Os linfócitos T são responsáveis por lisar células infectadas, recrutar outras células para o combate à infecção e produzir citocinas. O aumento na quantidade de linfócitos T está associado a presença de infecções virais, algumas infecções bacterianas (brucelose crônica, sífilis congênita e coqueluche) e doenças linfoproliferativas (leucemia linfoide, linfoma não Hodgkin). Níveis reduzidos desses linfócitos ocorrem em resposta ao estresse agudo, em deficiências nutricionais (vitamina B12, folato e zinco), em infecções bacterianas agudas, uso de glicocorticoides e aumento na destruição de células causadas por radioterapia, quimioterapia e infecção por HIV. A quantificação de linfócitos T CD4+ é especialmente importante no acompanhamento de pacientes HIV positivos.

Os linfócitos NK estão em menor número na circulação e possuem a função de destruir células alvo, atuando no combate a células infectadas com vírus e eliminação de células tumorais.

 

Contagem de linfócitos: hemograma

A diferenciação dos três tipos de linfócitos só é possível por meio de técnicas de biologia molecular e citometria de fluxo. Em um hemograma temos a representação geral dos linfócitos circulantes no sangue. Vale ressaltar que tanto equipamentos que realizam a contagem diferencial de leucócitos em três partes quanto equipamentos de cinco partes liberam os valores absolutos e relativos de linfócitos presentes na amostra de sangue.

Alguns equipamentos liberam resultados com flags, que são alertas sugestivos de alterações na contagem, diferenciação e morfologia das células. Nesses casos, é imprescindível a realização de lâminas para a contagem manual dos leucócitos.

 

Contagem de linfócitos: lâminas

Os linfócitos são células de fácil identificação em lâminas hematológicas devido às suas caraterísticas morfológicas e tintoriais (figura 1). Alterações significativas nesse padrão são encontradas nas células chamadas de linfócitos reativos ou atípicos (figura 2) e linfócitos anormais. Essas alterações incluem: tamanho aumentado da célula, imaturidade do núcleo com cromatina descondensada, contorno nuclear irregular e presença de lóbulos, presença de vacúolos, citoplasma abundante, contorno irregular da célula, entre outras.

O ICHS (International Council for Standardization in Haematology) recomenda que a classificação de linfócito atípico seja empregada para descrever linfócitos de etiologia benigna, enquanto o termo linfócito anormal deve ser utilizado em casos de suspeita de malignidade.

 

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Figura 2. Linfócitos atípicos em sangue de paciente com mononucleose. Fonte: LACES – UFG

 

Linfócitos atípicos estão associados a algumas condições patológicas, tais como: mononucleose, infecções virais (citomegalovírus, adenovírus, herpes, HIV, rubéola e varicela), meningite linfocitária, infecções bacterianas (brucelose, tuberculose e sífilis), infecções por protozoários (toxoplasmose e malária) e hipersensibilidade a drogas.

Linfócitos anormais são encontrados em diferentes tipos de leucemias e linfoma. Na leucemia linfoblástica aguda, por exemplo, são observadas células jovens, denominadas linfoblastos (figura 3). Na leucemia de células pilosas ou tricoleucemia são observadas hairy cells, que são células diferenciadas com projeções citoplasmáticas que lembram cabelos (figura 4).

 

Linfoblastos

Figura 3. Linfoblastos (células maiores) ao redor de um neutrófilo segmentado (centro). Fonte: LACES – UFG

 

Hairy-cell

Figura 4. Hairy cell (centro da imagem). Fonte: UFG

 

A presença de linfócitos atípicos e anormais sempre deve ser relatada pelo profissional responsável pela análise da lâmina, pois representa um ponto chave no diagnóstico clínico.

 

Aline Regina da Cruz

Mestre em Bioquímica e Imunologia – UFMG

Coordenadora de Produção – Diagno 

 

Referências:

Atlas de Hematologia. UFG. Disponível em < https://hematologia.farmacia.ufg.br/ >. Acesso em: 22/04/2019.

Bain, BJ. Células sanguíneas: um guia prático. 5.ed. Porto Alegre: Artemed, 2016. p. 123-130.

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Hoffbrand, AV. Fundamentos em hematologia. 6.ed: Porto Alegre, 2013. p. 127-139.

LACES – Laboratório de Análises Clínicas e Ensino em Saúde. Atlas Virtual de Hematologia. UFG. Disponível em <https://laces.icb.ufg.br/p/19038-atlas-virtual-de-hematologia?locale=en>. Acesso em: 18/03/2019.

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